Audálio Dantas e “As duas guerras de Vlado Herzog”

AsDuasGuerrasdeVladoNas 400 páginas de As duas guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira), vencedora em 2013 na categoria Livro do Ano – Não ficçãoAudálio Dantas conta a história das duas guerras vividas por Vlado Herzog: a primeira, na infância, quando fugiu dos nazistas que haviam invadido a Iugoslávia; e a segunda, já adulto, durante ditadura militar brasileira, que o mataria em 1975.

A vontade de escrever o livro ficou contida desde o culto ecumênico em homenagem a Herzog, em 31/10/1975, na catedral da Sé, em São Paulo: “Aquele momento nunca saiu da minha mente. Ele está permanentemente gravado porque marcou a história do Brasil. Tínhamos dado a informação de que a desordem interessava a eles [militares], não à sociedade”. Em 2005, 30 anos após o episódio, Audálio decidiu que era tempo de colocar aquela ideia em prática.

“Este livro é a tentativa de reconstituição de um tempo ruim. Centrado nos tumultuados dias de outubro de 1975, quando a fúria dos agentes do lado mais escuro da ditadura militar golpeou a fundo a categoria dos jornalistas, ele mostra os acontecimentos do ponto de vista de quem os viveu intensamente. Eu, por exemplo, que não tenho dúvida de que aqueles foram os dias mais angustiantes da minha vida”, diz em trecho da obra.

O ponto de partida de As duas guerras de Vlado Herzog é a fuga da família Herzog de Banja Luka, na Iugoslávia, para a Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Parte da família que ficou para trás foi exterminada em campos de concentração. Vlado e seus pais – Zigmund e Zora – chegaram aos Brasil às vésperas do Natal de 1946, com sonhos de uma vida melhor longe da guerra de devastara seu país de origem. Audálio conta a história da infância de Vlado a partir de uma carta escrita por Zigmund, em 1972.

“Resolvi fazer um plano do livro diferente, que não se fixasse na episódio da morte. Quis fazer no livro uma pequena biografia de duas fases da vida de Vlado: uma dele menino e outra na fase adulta no Brasil”, conta Audálio.

Em outro trecho da obra, ele diz que “escrever este livro significa reviver um pesadelo. Nos pesadelos, os momentos de maior angústia persistem na memória”. E completa: “Muito da história que insistem em manter na sombra é aqui contada por pessoas que viveram os longos anos de opressão da ditadura e são testemunhas dos fatos ocorridos durante os dias tumultuados de outubro de 1975. Depoimentos de quase meia centena de pessoas foram registrados para este livro. Todos os jornalistas que passaram pelo DOI-Codi, antes e depois da morte de Vlado, foram entrevistados. Foram ouvidos diretores do Sindicato e personalidades que tiveram participação relevante no episódio”.

Imagem de Vladimir Herzog, morto, em uma cela do DOI-Codi
Imagem de Vladimir Herzog, morto, em uma cela do DOI-Codi

Na época, Audálio Dantas era presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Foi o próprio Sindicato, que, no dia seguinte à morte de Vlado, denunciou o ocorrido como assassinato e responsabilizou o Estado pela morte do jornalista.

“Vlado foi o 12º jornalista sequestrado naquele período. E denunciamos um a um, desde o primeiro. Claro que com ele foi mais grave, porque resultou em morte. No dia seguinte à notícia – quando ainda não havia sido divulgada a foto dele morto na prisão – emitimos nota responsabilizando o Estado pela morte. Dois pontos foram fundamentais para a repercussão dessa nota: o primeiro foi que a responsabilidade pela morte do preso que estava em poder das autoridades era, sim, do Estado, independentemente das circunstâncias dessa morte; o segundo, foi que havia um convite para o velório do Vlado, o que não era comum. Na época, as pessoas que morriam vítimas de confrontos policiais, suicídio etc. eram enterradas sem barulho. Vlado foi a primeira vítima da ditadura a não ser enterrada em silêncio”, conta.

Audálio completa dizendo que a principal missão do livro é ressaltar a importância do papel do Sindicato na luta contra a ditadura: “O Sindicato deu passos ousados. Destaco entre eles a elaboração de um documento, intituladoEm nome da verdade, no qual se contestavam – com apoio de advogados – as conclusões do inquérito sobre a morte de Herzog, cujo objetivo era provar um suicídio que não existiu. Esse documento circulou em redações de vários estados e reuniu 1.004 assinaturas, além de dinheiro para que o publicássemos como matéria paga. Apenas O Estado de S. Paulo publicou”.

“A sensação agora é semelhante a que eu tive em 31/10/1975, quando desci as escadarias da Sé: de alívio, de dever cumprido. Com este livro, pago uma dívida comigo mesmo”.

 

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