Eliane Brum: “Reportagem é o diferencial do jornalismo”

elianebrumSegunda jornalista mais premiada do Brasil em 2015, Eliane Brum segue sua carreira em um ritmo alucinante de produções jornalísticas de qualidade e, consequentemente, de prêmios. Gaúcha de Ijuí, começou a carreira em Zero Hora, mas foi como repórter especial da Época que ganhou notoriedade nacional.

Em pouco mais de dez anos de casa, acumulou prêmios e reconhecimentos, entre eles o SIP de Direitos Humanos, o Esso de Informação Científica e quatro vezes o Vladimir Herzog. É premiada também como autora de livros. Com A vida que ninguém vê (Arquipélago, 2006), venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro-Reportagem.

É autora também de O avesso da lenda (Artes e Ofícios, 1994), O olho da rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real (Editora Globo, 2008) e do romance Uma Duas (LeYa, 2011), e dirigiu e roteirizou, com Débora Diniz, o documentário Uma história Severina, em 2005.

Ao lado de Natalia Viana, da Agência Pública, termina 2016 como +Premiada Jornalista Brasileira do Ano. E em entrevista a este Mais Premiados, falou sobre a importância de suas conquistas, a necessidade de se discutir o jornalismo brasileiro e contou um pouco dos bastidores de suas reportagens premiadas ao longo de 2016:

Mais PremiadosEm se tratando de prêmios de jornalismo, 2016 se mostrou um ano-chave para publicações independentes ou fora dos grandes grupos de comunicação. Que análise você faz desse novo cenário e de como esses veículos estão encarando os novos moldes de se fazer jornalismo?

Eliane Brum – Acho fundamental que existam novos espaços de jornalismo, além dos tradicionais, focados na reportagem. Acredito muito profundamente que a imprensa tem um papel insubstituível numa democracia – e a fragilidade da imprensa é um risco para o que chamamos de sociedade. Infelizmente, hoje, a crise da imprensa é de modelo de negócios, mas é também de representação, já que parcelas da sociedade não se sentem representados naquilo que leem, ouvem ou assistem. Esse sentimento já era forte e se acirrou ainda mais no processo que resultou na retirada de uma presidente democraticamente eleita do poder sem base legal para isso. Acredito que os papéis, no plural, desempenhados pela imprensa nos últimos acontecimentos da história contemporânea do Brasil, em especial a partir de 2013, é algo que precisa ser esmiuçado, documentado, analisado e debatido por todos nós. É preciso fazer reportagem também sobre a imprensa, em sua complexidade e contradições.

MPQual o papel da reportagem nesse cenário?

Eliane – Acredito que a reportagem, o grande diferencial do jornalismo, é uma narrativa insubstituível. Não há nada melhor para documentar a história em movimento do que a reportagem, aquela que escuta, que investiga, que checa, que se move por dúvidas e contempla as contradições. Mas cada vez que uma matéria se parece com um post no Facebook, o jornalismo sobe um degrau a mais em direção à irrelevância. Por isso é tão importante que a reportagem ainda resista em espaços da imprensa tradicional, ainda que muito menos do que seria necessário, e seja o foco de espaços novos.

Não me alinho ao lado das pessoas que comemoram o fim de qualquer veículo, mesmo que discorde de sua linha editorial. Cada espaço de jornalismo que se encerra, tradicional ou não, é uma voz a menos. E acho que o mundo se amplia com vozes a mais, com polifonia, com debate e com diversidade. Vivemos um momento muito duro do País e do planeta e, infelizmente, vastas porções dos tantos Brasis não estão sendo contadas pela reportagem. E esta é uma perda irreversível do ponto de vista da documentação do hoje.

MPE como você enxerga o atual momento vivido pela imprensa brasileira?

Eliane – É um momento muito delicado. Infelizmente, acho que ainda é pequeno o número de pessoas que percebe que a crise da imprensa e a escassez de reportagem não são um problema de jornalistas, mas um problema urgente para todos, de qualquer profissão, estrato social, raça, crença, ideologia, orientação política. Há algumas pessoas pensando sobre isso, mas deveria ter muito mais gente pensando sobre isso. Construir uma imprensa múltipla e forte, o que significa reportagem consistente, é uma tarefa urgente – e é de todos.

MPA grande maioria dos prêmios em sua carreira foi conquistada a partir de reportagens, mas sua principal conquista em 2016 veio de um artigo de opinião. Qual a relevância disso para você?

ElianeA mais maldita das heranças do PT foi publicado em março de 2015, no El País, no dia seguinte às grandes manifestações contra Dilma Rousseff. Nele eu busquei analisar as razões pelas quais o PT perde as ruas – e os significados disso para pelo menos duas gerações de esquerda. Mas, mais do que isso, o que movia as parcelas da população que não se situavam em nenhum dos polos. Não via naquele momento, assim como não vejo agora, o Brasil partido em dois pedaços. O que vejo é uma trama bem mais complexa. E já naquele momento buscava pensar sobre o que significavam os votos brancos, nulos e as abstenções. O artigo aposta na hipótese de que o maior risco para o partido não era quem estava nas ruas contra ele e contra o governo, mas quem não estava nas ruas para defendê-lo e costumava estar. Ou seja, aquilo que apontava para a sua perda de capacidade de representação. Um nó crucial para compreender a trajetória do PT, sim, mas também para desvendar o País e os significados mais profundos deste momento, com ecos que se estenderão por décadas.

MPComo é para você “virar a chave”, de repórter para colunista?

Eliane – Como sou repórter, meus artigos de opinião são construídos a partir de meu trabalho contínuo de investigação das ruas. Não fosse assim, não teriam lastro. Para mim, opinião é algo muito sério e me movo pelas dúvidas, na tentativa de iluminar os cantos escuros dos acontecimentos e contribuir com novas interrogações. É fundamental, neste momento, com o debate tão interditado pelo ódio e pela manipulação do ódio, que possamos voltar a ocupar o espaço público para debater, dialogar com as diferenças. Precisamos voltar a escutar o outro – e não o destrur. Escrevo minha coluna no El País com esse pensamento de fundo, no desejo de abrir espaço para perguntas mais difíceis e para a continuidade de uma conversa que nunca pode parar.

elianebrumbelomonte
O casal Raimunda e João, protagonistas de Vítimas de uma guerra amazônica

MPEm Vítimas de uma guerra amazônica você viaja para a região do Xingu e faz o trabalho de reportagem in loco da realidade na região. Como foi produzir esse material?

Eliane – A reportagem contou os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, pela trajetória de João e Raimunda da Silva. Assim, ela não conta apenas a história deste momento, mas a história de como se chegou a este momento. Contar Belo Monte, no meu ponto de vista, é contar a história do Brasil. João e Raimunda carregam pedaços dessa história em sua travessia em busca de um lugar onde possam viver sem fome. Ele, migrante, torna-se construtor de grandes obras construídas pelas empreiteiras no Brasil e no mundo e também de barragens da ditadura. Assim, o barrageiro de Tucuruí, usina da ditadura, acaba sendo expulso por outra barragem, a de Belo Monte, esta consumada na democracia. Raimunda, descendente de escravos, filha de quebradeira de coco, também é migrante, mas são outros a sua trajetória e seus caminhos. Eles se encontram numa esquina dos Brasis, apaixonam-se e criam uma família.

MP Como foi seu contato com os personagens mostrados na reportagem e com o local onde foi construída a usina?

Eliane – Quando os encontro, sua casa, numa ilha do Xingu, tinha sido queimada pela Norte Energia. Raimunda desce da canoa e quase tudo são cinzas. E João, depois de saber que receberia uma indenização que não lhe permitiria recompor a vida, paralisou as pernas e a fala no escritório da empresa. Esse é o resumo dessa reportagem que foi publicada primeiro no site do El País, em português, depois em espanhol, no jornal impresso, e foi traduzida para o inglês para o livro Glossolalia: Women writing Brazil, do PEN America. Quem se interessar pode ler as versões em português e inglês na internet. Viajei de canoa pelo Xingu por vários dias com Raimunda, entrevistando-a e a observando. Depois, encontrei João na periferia de Altamira, onde tentavam construir uma moradia para viver depois de terem suas casas – a da ilha e a da cidade – destruídas pelo processo de Belo Monte. Esse foi o momento em que me dediquei às entrevistas gravadas com eles, que depois foram inteiramente transcritas para obter a palavra exata e reproduzir a linguagem tão rica de cada um, assim como o ritmo particular da fala.

MPÉ uma região na qual você vem se especializando, não é mesmo?

Eliane – Eu escrevo sobre a Amazônia desde 1998, conheço aquela região específica desde 2004 e acompanho o processo de Belo Monte desde 2011. Assim, consigo contextualizar a história deles numa paisagem mais ampla por conta dessa apuração que me leva até aquela região duas ou três vezes por ano, assim como pela minha pesquisa de fundo sobre a Amazônia. Não é um trabalho pontual de reportagem, mas um trabalho persistente de reportagem. Mais tarde, quando Dilma Rousseff inaugurou Belo Monte, escrevi outro texto com o capítulo seguinte da história de João e Raimunda. Tudo isso está acessível na internet, no site do El País, a quem se interessar por reportagem.

Deixe uma resposta

*