Natalia Viana: “Tenho prazer em ser repórter”

Formada em Jornalismo pela PUC-SP, com mestrado em Radiojornalismo pela University of London, Natalia Viana começou a carreira na revista Caros Amigos, onde atuou por quatro anos, passou pelo portal Terra e pela BandNews FM, e colaborou com diversas publicações internacionais, como os jornais ingleses The Independent, The Sunday Times e The Guardian.

Em 2010 foi convidada pelo Wikileaks para coordenar a publicação dos documentos diplomáticos das embaixadas americanas no Brasil, além de coordenar a parceria da organização com os jornais Folha de S.Paulo e O Globo.

Fundou em março de 2011, junto com Marina Amaral e Tatiana Merlino, a Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo, a primeira do gênero no Brasil. Hoje, quase seis anos depois, a agência e Natália acumulam reconhecimento e muitos prêmios de jornalismo. Ao lado de Eliane Brum, colunista do El País, termina 2016 como +Premiada Jornalista Brasileira do Ano.

Em entrevista a este Mais Premiado, Natalia falou sobre a importância desses reconhecimentos em sua carreira e contou um pouco dos bastidores de suas reportagens premiadas ao longo de 2016:

Mais PremiadosEm 2016 você conquistou três importantes prêmios: Comunique-se, Vladimir Herzog e Gabriel Garcia Márquez. Qual o significado desses resultados para sua carreira e para a consolidação da Agência Pública como um veículo respeitado e reconhecido pelo meio jornalístico?

Natália Viana – São reconhecimentos muito importantes não só para mim, mas também para o trabalho que estamos desenvolvendo na Pública há 5 anos. Eles mostram que, com os anos, estamos aperfeiçoando o jornalismo. A pergunta que eu mais respondo quando falo sobre a Publica em entrevistas é: como é o financiamento de vocês? Com isso, a qualidade, a inovação, as revelações do nosso jornalismo geralmente são deixadas de lado nas entrevistas e conversas sobre a Pública. Mas esses três prêmios – aos quais tenho que agregar o Premio Petrobrás de Jornalismo, que vencemos pelo Especial Tapájos, e o Mulher Imprensa, conquistado pela Andrea Dip – mostram que o maior valor da Pública é o seu jornalismo, o seu conteúdo. E é só por isso que conseguimos ser uma organização sem fins lucrativos e sustentável.

Natalia Viana durante gravação de entrevista com o editor Fernando Soares
Natalia Viana durante gravação de entrevista com o editor Fernando Soares / Crédito: Imagem Corporativa

MPVocê enxerga de maneira diferente a conquista de um prêmio pelo reconhecimento de sua carreira, como nos casos de Comunique-se e Mulher Imprensa?

Natália – É bem diferente. Isso porque os prêmios Comunique-se e Mulher Imprensa são mais gerais. Eu costumo ler como um reconhecimento ao trabalho da Pública e de toda a equipe. Faz 5 anos que eu e a Marina Amaral estamos 100% dedicadas à organização, e tudo o que fazemos é necessariamente pela Publica, para a Pública, pensando na Pública, é um reflexo disso. E a entrega é muito recompensadora porque mostra que nossos pares estão lendo, discutindo, e respaldando a nossa produção.

MPÉ mais difícil ganhar prêmios como esses quando se está fora dos grandes grupos de comunicação?

Natália – O fato de uma jornalista independente ser reconhecida em prêmios “pela carreira” é algo novo, que comprova que o jornalista feito fora das redações tradicionais está ganhando uma crescente boa reputação.

MPE em relação às iniciativas que premiam reportagens?

Natália – O prêmio por uma reportagem é uma alegria bastante diferente. Imediatamente você se lembra de como teve a ideia, como começou a buscar aquela história, os pepinos que encontrou no caminho, as (muitas) vezes em que pensou em desistir, então te remete a uma experiência que sempre é única. E, para mim, ser reconhecida como repórter, a mais admirável de todas as profissões, é sempre a revitalização de um sonho. Eu sou uma repórter tão apaixonada, tão boba, que até hoje morro de orgulho de ligar para alguém e dizer “olá sou Natalia, sou repórter da Agência Publica e estou fazendo uma matéria…”. Eu penso, puxa, taí, não é que eu consegui ser repórter de verdade?

MP – Como surgiu a ideia de produzir São Gabriel e seus demônios?

Natália – Eu quis fazer essa reportagem quando li que o Mapa da Violência 2015 trazia o município de São Gabriel da Cachoeira, a 800 quilômetros de Manaus, o mais indígena do País (cerca de 76% da população é indígena), como o líder nacional de taxa de suicídios. A pergunta era: por que esses indígenas estão se suicidando? O fato havia sido brevemente noticiado, mas eu achava que havia ali uma história mais profunda, que merecia um mergulho.

MP Como foi tratar com os habitantes locais e as famílias que passaram por esse problema? Eles foram receptivos?

Natália – Quando decidi ir a fundo nessa história, eu não sabia, ainda, se seria possível escrever sobre ela. O suicídio é um tema tabu – diz-se inclusive que não se deve fazer reportagens sobre o tema – e não é diferente com os indígenas. É um assunto difícil de conversar, e ainda mais difícil de entender, processar, e transformar em texto. Por isso, acabei viajando para São Gabriel durante as férias, quando não estava tão atarefada com o dia a dia da Pública, para poder ter o tempo de entrevistar as pessoas mais livremente – e ver para onde a história iria caminhar. Acho que o resultado, uma longuíssima reportagem, conseguiu reunir elementos que contam uma história profunda: a história das diversas violências enfrentadas por esses povos indígenas em nome da construção do Brasil. Foi uma reportagem que mudou a minha percepção do nosso país.

MP E o Especial 100. Vocês contaram com uma grande equipe, e dessa maneira, a quantidade de material produzido deve ter sido proporcionalmente grande. Como foi o trabalho de edição e finalização? Muitas histórias tiveram que ficar para trás?

Natália – Não, na verdade foi o oposto. Desde o começo a ideia era publicar 100 entrevistas com famílias que foram expulsas de suas casas, que tiveram suas casas destruídas por causa dos Jogos Olímpicos. Não existe uma estimativa oficial do número de famílias nessa condição porque a Prefeitura do Rio simplesmente se nega a publicar esse dado. Então tivemos que partir de estimativas de pesquisadores e do Comitê Popular da Copa, de que cerca de 2.500 famílias perderam suas casas por causa dos Jogos. Decidimos buscar 4% do total, chegando a 100. E separamos por comunidade removida, para conseguirmos uma representatividade real do que aconteceu (não ficando por exemplo apenas limitadas a comunidades mais acessíveis). Foi um trabalho colossal, porque todas as entrevistas teriam que ser feitas pessoalmente, para serem publicadas em vídeo ou em áudio com um slideshow de fotos.

MP Como foi estruturada a equipe?

Natália – Reunimos nossas próprias repórteres – três no total – e fizemos uma parceria com a ESPM do Rio, que disponibilizou 19 alunos para nos ajudar a fazer as entrevistas e editar os vídeos. Conseguimos lançar o especial alguns dias antes do início das Olimpíadas com 64 reportagens, e conseguimos completar as 100 antes do final dos Jogos.

MP E qual foi o principal resultado obtido com esse trabalho?

Natália – Hoje temos a base de dados mais completa do mundo sobre remoções ligadas às Olimpíadas. Conseguimos mapear para onde essas pessoas foram, o que sentiram, o que receberam como compensação. E como elas contaram sua própria história, em primeira pessoa, o que se tem ali é um contato direto com as famílias. Por isso, traduzimos tudo para o inglês e disponibilizamos o especial como um recurso valioso para repórteres e pesquisadores que quiserem ouvir a própria voz dos atingidos, e a partir delas produzir reportagens, estudos, análises. É um projeto que tem uma utilidade que vai além do noticioso: é uma base de dados viva, que seguirá sendo útil para jornalistas e comunidades que vierem a debater se vale a pena ou não receber megaeventos como esses.

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